SALA 2

As máscaras fazem parte da história cultural desde tempos antigos, como evidenciam as representações na arte rupestre do sul do Peru e sua presença em culturas pré-hispânicas como Moche, Paracas, Nazca, Chimú-Lambayeque, Chavín e Chancay. Com a conquista, muitas práticas foram reprimidas, mas conseguiram sobreviver por meio de transformações e formas sincréticas.

A máscara não é apenas um objeto: ela transforma o corpo do dançarino em um “corpo-oferenda”, permitindo-lhe encarnar outra identidade e atuar como mediador entre mundos. Não oculta, mas revela e altera a percepção do espectador. Na festa da Virgem do Carmo em Paucartambo, as máscaras são elaboradas coletivamente com materiais como gesso, papelão, lã ou metal, representando figuras humanas, animais e míticas.

Os mestres mascareros, também dançarinos, criam essas peças a partir de sua experiência corporal, combinando tradição e inovação. A máscara torna-se, assim, portadora de memória, identidade e transformação, dando origem a uma presença simbólica que integra comunidade, ritual e continuidade cultural.

Miguel Rubio Zapata

Majeño

Os Majeños representam os comerciantes provenientes do vale de Majes, na costa sul andina. Seu nome faz referência a essa região conhecida pela produção de vinho e aguardente, razão pela qual encarnam personagens ligados ao comércio, à festa e à abundância.

Dentro da narrativa da festa, simbolizam a conexão entre a serra e a costa, mostrando a troca de produtos e culturas. Não desempenham um papel de conflito direto, mas contribuem com um tom festivo, associado ao consumo, à celebração e à vida social.

Durante a celebração, destacam-se por sua atitude alegre, elegante e às vezes exagerada, representando comerciantes prósperos que desfrutam da música, da bebida e da festa, integrando-se ao ambiente geral de devoção e celebração.

Seu traje inclui roupas finas, máscaras claras, chapéus elegantes e acessórios como garrafas ou taças. Esses elementos simbolizam a riqueza, o comércio de produtos como o vinho e o caráter festivo que trazem à celebração.

Wayra

Os Wayra, também conhecidos como “doutorzinhos”, representam personagens da elite colonial espanhola, como médicos, advogados ou letrados. A palavra wayra significa vento em quéchua, e seu nome está relacionado à forma como se movem e aparecem na festa: leves, inquietos e mutáveis, como o vento. Eles encarnam o conhecimento e o poder ligados ao mundo europeu.

Dentro da narrativa da festa, simbolizam de maneira satírica essa elite colonial. Por meio de gestos exagerados e atitudes burlescas, não a glorificam, mas a ridicularizam, expressando uma crítica social à sua autoridade e ao seu papel na história andina.

Durante a celebração, não participam de confrontos nem desempenham um papel de proteção. Em vez disso, observam e intervêm com humor, trazendo dinamismo e crítica ao desenvolvimento festivo.

Seu traje inclui roupas elegantes de estilo europeu, máscaras refinadas, perucas e acessórios como óculos ou livros. Esses elementos reforçam sua imagem de “doutorzinhos” e destacam seu caráter satírico dentro da representação.

Padeiros e Padeiras

Os Padeiros e Padeiras representam os trabalhadores dedicados à produção e venda de pão, um ofício fundamental na vida cotidiana andina. Encarnam um setor popular que sustenta a economia local e o abastecimento diário da comunidade.

Dentro da narrativa da festa, simbolizam a abundância, o sustento e a vida em comunidade, já que o pão está associado ao compartilhamento e à solidariedade. Sua presença destaca a importância dos ofícios tradicionais no equilíbrio social.

Durante a celebração, participam com um tom alegre e dinâmico, interagindo entre si e com o público, trazendo proximidade e um senso de comunidade ao ambiente festivo.

Seu traje inclui roupas tradicionais, aventais, cestas e elementos relacionados ao pão. Esses elementos reforçam sua identidade como trabalhadores do povo e destacam seu papel dentro da vida cotidiana representada na festa.

Chucchus

Os Chucchus, ou “palúdicos”, representam os doentes de malária, uma enfermidade que afetou fortemente as regiões selváticas e quentes próximas a Paucartambo. Encarnam aqueles que retornavam debilitados da selva, mostrando uma realidade histórica ligada ao contato entre regiões.

Dentro da narrativa da festa, simbolizam o sofrimento, a fragilidade do corpo e os perigos das viagens à selva. Também refletem a experiência daqueles que, em busca de trabalho ou comércio, enfrentavam doenças desconhecidas.

Durante a celebração, sua dança possui um tom particular, com movimentos trêmulos e gestos exagerados que imitam os sintomas da doença, gerando ao mesmo tempo impacto e um toque de humor dentro do conjunto festivo.

Seu traje inclui roupas gastas, aparência descuidada e elementos que ressaltam seu estado de fraqueza. Essas características reforçam sua representação como personagens afetados pela doença e seu papel dentro da memória coletiva da festa.

Maqta

Os Maqta representam os jovens do povo, especialmente os camponeses andinos. A palavra maqta em quéchua significa rapaz ou jovem, e está associada à energia, à esperteza e à vitalidade.

Dentro da narrativa da festa, simbolizam o próprio povo e funcionam como uma voz de crítica social. Por meio do humor e da zombaria, questionam as autoridades e outros personagens da festa.

Durante a celebração, são muito ativos e interagem constantemente com o público, fazendo brincadeiras, perseguindo pessoas e criando desordem. Sua presença traz dinamismo e proximidade, rompendo a formalidade de outros grupos.

Seu traje inclui roupas simples, máscaras expressivas e acessórios chamativos. Essas características reforçam seu caráter brincalhão e seu papel como personagens que combinam diversão e crítica dentro da festa.

Qhapac Negro

Os Qhapaq Negro representam a população afrodescendente trazida durante a época colonial, especialmente pessoas escravizadas que trabalhavam em fazendas e regiões quentes. A palavra qhapaq significa nobre ou poderoso, e negro faz referência à sua origem africana; o nome pode ser entendido como uma forma simbólica de dignificar sua figura dentro da festa.

Dentro da narrativa, simbolizam a memória da escravidão e a presença afro na história andina. Sua participação não é de zombaria, mas de reconhecimento, demonstrando resistência, identidade e a contribuição cultural desses grupos para a sociedade.

Durante a celebração, sua dança combina força e ritmo, com movimentos marcantes que evocam trabalho, resistência e intensa expressão corporal. Eles acrescentam uma importante dimensão histórica ao conjunto das comparsas.

Seu traje inclui máscaras escuras, perucas cacheadas, roupas elegantes e acessórios distintivos. Esses elementos reforçam sua identidade e seu papel como representação da herança afrodescendente dentro da festa.