Sala de exposições 1

Os Outros Rostos da Guatemala

O uso de máscaras na Guatemala tem uma tradição quase milenar. No mundo maia, as máscaras permitiam representar deuses e seres sobrenaturais durante cerimônias e rituais. Também eram utilizadas como máscaras funerárias, pois acompanhavam os defuntos e os fortaleciam em seu trânsito para o inframundo.

Com a chegada dos espanhóis, as antigas tradições ligadas ao uso de máscaras foram ressignificadas no contexto colonial. Os missionários incorporaram essa prática a representações teatrais e danças destinadas à evangelização, dando origem a novas expressões nas quais conviviam elementos europeus e indígenas.

Entre as mais conhecidas encontram-se o Baile da Conquista, que representa os confrontos entre espanhóis e povos maias durante a conquista da Guatemala; as Danças de Mouros e Cristãos, inspiradas na tradição medieval espanhola; e a Dança dos 24 Diabos, de profundo conteúdo religioso e moral. Em algumas dessas representações aparecem também personagens como Hernán Cortés e La Malinche, figuras emblemáticas da conquista do México que, com o tempo, passaram a integrar o repertório das danças coloniais guatemaltecas.

Junto a essas manifestações de origem colonial, continuam vigentes as máscaras que representam diversos animais, ligadas a antigas danças e crenças pré-hispânicas. Esculpidas inteiramente em madeira, essas peças refletem a continuidade das tradições maias e a vigência de um patrimônio cultural que segue se transformando e sendo transmitido de geração em geração.

Claudio Rama

Máscara azul
Madeira (Esculpida – Pintada – Vidro)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Dança da Conquista

A Dança da Conquista é uma das mais importantes representações tradicionais da Guatemala. Surgida durante o século XVI no contexto da evangelização, recria o confronto entre os conquistadores espanhóis e os povos maias, tendo como eixo a conquista do reino k’iche’ por Pedro de Alvarado.

A representação começa com a chegada dos emissários espanhóis à corte do rei k’iche’. Entre seus principais personagens encontram-se Pedro de Alvarado, Tecún Umán, considerado um herói da resistência maia; seu tenente Huitzitzil Zunun; o sacerdote Ajitz; e as chamadas Malinches, personagens próprios da tradição teatral da dança. O relato culmina com o confronto entre Pedro de Alvarado e Tecún Umán, a derrota do reino k’iche’ e o início do processo de evangelização durante o período colonial.

As máscaras utilizadas nesta dança representam tanto personagens indígenas quanto espanhóis. As dos conquistadores distinguem-se por seus pronunciados bigodes e barbas, traços que identificam o europeu dentro da representação. Mais do que simples fantasias, estas máscaras são objetos rituais: ao colocá-las, os dançarinos encarnam os personagens e permitem que a comunidade reviva episódios de sua história, reflita sobre o passado e mantenha viva uma tradição transmitida de geração em geração.

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada – Vidro)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada – Vidro)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada – vidro)
Santiago de Atitlán, Meados do Século XX
Dança da Conquista
Col. Claudio Rama

Máscara de Espanhol ou Conquistador
Madeira (Esculpida – Pintada – vidro)
Guatemala, Fim do Século XX
Dança da Conquista
Col. Claudio Rama

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada – vidro)
Santiago de Atitlán, Século XX
Dança da Conquista
Col. Claudio Rama

Máscara de Dança da Conquista
Madeira (Esculpida – Patinada)
Guatemala, Meados do Século XX
Totonicapán ou Chichicastenango
Col. Claudio Rama

Dança de Mouros e Cristãos

A Dança de Mouros e Cristãos tem sua origem na península ibérica, onde surgiu como uma representação festiva dos confrontos entre os reinos cristãos e muçulmanos durante a Idade Média. Com a chegada dos espanhóis à América, essas representações foram incorporadas às estratégias de evangelização e utilizadas para difundir o cristianismo entre os povos indígenas.

A dança recria, mediante o teatro, a música e as máscaras, o confronto entre ambos os bandos. Neste relato, os cristãos representam a vitória da fé cristã, enquanto os mouros simbolizam seus adversários. Durante o período colonial, essas representações contribuíram para transmitir os valores e a visão de mundo promovidos pelos conquistadores.

Na Guatemala, a dança foi adotada por numerosas comunidades e, com o tempo, passou a fazer parte das celebrações locais, incorporando elementos próprios de cada região. No município de Mixco, é representada durante a festividade de Santo Domingo de Guzmán, fundador da Ordem dos Pregadores (dominicanos), tornando-se uma expressão que combina tradições europeias e indígenas.

Máscara de Cristão
Madeira (Esculpida – Pintada – Vidro)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara de Cristão
Madeira (Esculpida – Pintada – Vidro)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Baile dos 24 Diabos

O Baile dos 24 Diabos é uma das expressões culturais mais representativas da Guatemala. Originário do município de Ciudad Vieja, no departamento de Sacatepéquez, constitui uma tradição de raízes coloniais que foi declarada Patrimônio Cultural Intangível da Nação.

A dança surgiu durante o século XVI como parte das estratégias de evangelização impulsionadas pelos frades franciscanos. Através do teatro, da música e das máscaras, buscava transmitir ensinamentos religiosos sobre o destino da alma, as consequências do pecado e a luta entre o bem e o mal. Com o tempo, essa representação foi incorporada pelas comunidades locais, tornando-se uma tradição profundamente enraizada que hoje faz parte das festividades dedicadas à Virgem da Imaculada Conceição.

A representação reúne diversos personagens. O Diabo Maior ou Rei encabeça uma legião de diabos, cada um associado simbolicamente a um pecado ou vício humano. Junto a eles aparecem outros personagens fundamentais, como o Anjo, a Alma, a Morte e o Mico, que desenvolvem um relato em que se enfrentam as forças do bem e do mal. Mais do que uma simples representação teatral, esta dança constitui uma expressão viva do patrimônio cultural guatemalteco, na qual convivem elementos religiosos, teatrais e festivos.

Máscara de Diabo
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara de Diabo
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscaras da Morte

A morte ocupa um lugar importante nas tradições festivas e rituais da Guatemala. Sua representação por meio de máscaras permite transformar uma ideia abstrata em um personagem visível, capaz de participar de danças, narrativas e celebrações.

As duas máscaras desta coleção apresentam rostos brancos e expressões diferentes. Uma exibe uma dentadura ampla, enquanto a outra apresenta uma expressão mais contida, com pequenas presas.

Essas representações nos lembram que as máscaras não reproduzem apenas rostos humanos ou animais. Elas também permitem dar forma a personagens ligados a conceitos fundamentais como a morte, o bem, o mal, a vida e o mundo sobrenatural.

Máscara da Morte
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara da Morte
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Dança do Torito

A Dança do Torito é uma tradição festiva presente em diversas comunidades da Guatemala, especialmente nas regiões do altiplano. Sua origem está ligada ao período colonial e à introdução do gado bovino e das touradas pelos espanhóis. Com o tempo, essas práticas foram incorporadas e transformadas pelas comunidades indígenas.

Em suas diferentes versões, a dança representa uma fazenda e a relação entre seus diversos personagens — proprietários, capatazes, vaqueiros e touros —, por meio de cenas que combinam música, dança e teatro. Em algumas delas, a história culmina com a morte do capataz às mãos do touro.

A dança é apresentada principalmente durante as festas patronais e constitui uma expressão de sincretismo cultural, na qual elementos introduzidos durante a época colonial se integraram às tradições e formas de celebração indígenas.

As máscaras de touro, esculpidas em madeira, permitem que os dançarinos incorporem o animal como personagem central da representação.

Máscara de Touro
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara de Touro
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Three-Faced Mask

Esta máscara singular é um exemplo do sincretismo religioso que caracterizou muitas comunidades indígenas da Guatemala durante o período colonial. A partir do século XVI, a evangelização impulsionou a criação de irmandades, instituições que reuniam elementos da tradição católica com práticas e crenças de origem maia. Muitas dessas irmandades continuam ativas na atualidade, especialmente no altiplano guatemalteco.

Em regiões como Sololá e Santiago Atitlán, as celebrações religiosas integram imagens e personagens da tradição cristã com figuras profundamente enraizadas na espiritualidade maia, como Maximón ou Rilaj Mam. Este processo de intercâmbio e transformação cultural deu origem a expressões rituais únicas, nas quais convivem símbolos de diferentes tradições.

Os traços desta máscara — como a barba, os múltiplos rostos, os três olhos e o olhar oblíquo — deram origem a diversas interpretações. Para alguns pesquisadores, a barba remete a personagens de autoridade introduzidos durante a colônia, enquanto os rostos e olhos múltiplos poderiam simbolizar a capacidade de ver além do mundo visível ou de atuar como mediador entre o mundo humano e o espiritual. Mais do que possuir um único significado, estes elementos refletem a riqueza simbólica e a complexidade das tradições rituais maias.

Máscara de três faces de Maximón
Madeira (Esculpida – Pintada)
Sololá, Fim do Século XX
Col. Claudio Rama

Malinche

Malinche, também conhecida como Doña Marina, foi uma mulher indígena que atuou como intérprete de Hernán Cortés durante a conquista do México. Sua figura aparece em inúmeras representações tradicionais relacionadas à conquista e faz parte de diferentes versões da Dança da Conquista na Guatemala.

Sua presença nessas danças mostra como personagens históricos do século XVI foram incorporados ao teatro popular e reinterpretados pelas comunidades ao longo do tempo.

A figura de Malinche possui diversos significados. Ela pode aparecer como intérprete e mediadora entre diferentes grupos, mas também tem sido representada a partir de perspectivas que a consideram colaboradora dos conquistadores.

As máscaras permitem observar como essas tradições constroem e transformam a memória histórica, convertendo acontecimentos do passado em narrativas que continuam sendo representadas no presente.

Máscara de Malinche
Madeira (Esculpida – Pintada)
San Marcos, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara de Malinche
Madeira (Esculpida – Pintada)
Totonicapán, Século XX
Col. Claudio Rama

O Baile dos Convites (ou Dança dos Convidados)

O Baile dos Convites, também conhecido como Dança dos Convidados, surgiu durante o período colonial como parte das festividades dedicadas ao santo padroeiro de uma comunidade. Seu nome faz referência ao convite que se estendia a habitantes de vilas vizinhas para participar da celebração, favorecendo o encontro entre distintas comunidades.

Com o passar do tempo, essas festividades incorporaram máscaras, fantasias e personagens cada vez mais variados. As primeiras máscaras, elaboradas artesanalmente, foram evoluindo até representar figuras da história, da política, da religião e, mais recentemente, personagens populares da vida cotidiana, do cinema, da televisão ou da cultura contemporânea.

Mais do que reproduzir uma história única, os convites constituem uma manifestação festiva em constante transformação. Através da música, da dança e das máscaras, cada comunidade expressa sua criatividade, reafirma sua identidade e mantém viva uma tradição que continua se renovando geração após geração.

Máscara de Nahual
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama

Máscara de Nahual
Madeira (Esculpida – Pintada)
Guatemala, Século XX
Col. Claudio Rama